domingo, 24 de março de 2019

Envelhecer - Arnaldo Antunes


A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer
A barba vai descendo e os cabelos vão caindo pra cabeça aparecer
Os filhos vão crescendo e o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo e a gente aprendendo a esquecer
Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá
Pois ser eternamente adolescente nada é mais demodé
Com uns ralos fios de cabelo sobre a testa que não para de crescer
Não sei por que essa gente vira a cara pro presente e esquece de aprender
Que felizmente ou infelizmente sempre o tempo vai correr
Não quero morrer pois quero ver
Como será que deve ser envelhecer
Eu quero é viver pra ver qual é
E dizer venha pra o que vai acontecer
Eu quero que o tapete voe
No meio da sala de estar
Eu quero que a panela de pressão pressione
E que a pia comece a pingar
Eu quero que a sirene soe
E me faça levantar do sofá
Eu quero pôr Rita Pavone
No ringtone do meu celular
Eu quero estar no meio do ciclone
Pra poder aproveitar
E quando eu esquecer meu próprio nome
Que me chamem de velho gagá.

Amanhã, só amanhã - Arnaldo Antunes

Tempo é tempo, por exemplo
Primeiro dia de aula
Véspera de aniversário
Ou começo de namoro
Pode até perder o sono
Mas amanhã, só amanhã
Amanhã só amanhã
Tempo é tempo, por exemplo
Aquele teto parado
Uma ideia, um pensamento
Gatilho a ser disparado
Pode até virar na cama
Mas amanhã, só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã só amanhã
Tempo é tempo, por exemplo
Dentro de um quarto fechado
Ou no centro da cidade
Ensaio de ansiedade
Cabeça fazendo plano
No meio da tempestade
Pode demorar um ano
Ou então a eternidade
Mas amanhã, só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã só amanhã
Tempo é tempo, por exemplo
Primeiro dia de aula
Véspera de aniversário
Ou começo de namoro
Pode até perder o sono
Mas amanhã, só amanhã
Amanhã só amanhã
Tempo é tempo, por exemplo
Dentro de um quarto fechado
Ou no centro da cidade
Ensaio de ansiedade
Cabeça fazendo plano
No meio da tempestade
Pode demorar um ano
Ou então a eternidade
Mas amanhã, só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã
Amanhã só amanhã
Amanhã (só amanhã)
(Só amanhã)
Amanhã, amanhã
Só amanhã
Amanhã (só amanhã)

Floreando

Floreando - Fino coletivo

Deu saudade de você
Vem floreando (vem floreando)
Na memória a sua imagem
Não sei dizer (não sei dizer)
Deu saudade de você
Vem floreando (vem floreando)
Na memória a sua imagem
Não sei dizer (não sei dizer)
Ah, sentimento do nada
Me ocorreu uma lágrima
Mas eu boto um sorriso
Olhando o céu, olhando o sol, olhando o mar
Deixando o vento soprar
Olhando o céu, olhando o sol, olhando o mar
Deixando o vento soprar
O momento de partir
A hora de voltar
Tempo solto no ar
Deu saudade de você
Vem floreando (vem floreando)
Na memória a sua imagem
Não sei dizer (não sei dizer)
Deu saudade de você
Vem floreando (vem floreando)
Na memória a sua imagem
Não sei dizer (não sei dizer)
Ah, sentimento do nada
Me ocorreu uma lágrima
Mas eu boto um sorriso
Olhando o céu, olhando o sol, olhando o mar
Deixando o vento soprar
Olhando o céu, olhando o sol, olhando o mar
Deixando o vento soprar
O momento de partir
A hora de voltar
Tempo solto no ar
Uma onda que bateu na praia
E voltou pro alto mar
Uma onda que bateu na praia
E voltou pro alto mar
Uma onda que bateu na praia
E voltou pro alto mar
Uma onda que bateu na praia
E voltou pro alto mar

Na garrafa - Trupe chá de boldo


Não quero gota, não quero gota
Quero você gostoso todo na garrafa
Não quero gota, eu quero gosto
De te tomar inteirinho pra ver se chapa
Não quero ponta, não quero ponta
Quero você feito fumaça na minha boca
Não quero ponta, eu quero tanto
Te fumar inteirinho pra ver se chapa


Chapar - Estar sob o efeito de drogas.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Torovoa

Minha cabeça trovoa
Sob meu peito te trovo
E me ajoelho
Destino canções pros teus olhos vermelhos
Flores vermelhas, vênus, bônus
Tudo o que me for possível
Ou menos
(Mais ou menos)
Me entrego, ofereço
Reverencio a tua beleza
Física também
Mas não só
Não só

Graças a Deus você existe
Acho que eu teria um troço
Se você dissesse que não tem negócio
Te ergo com as mãos
Sorrio mal
Mal sorrio
Meus olhos fechados te acossam
Fora de órbita
Descabelada
Diva
Súbita
Súbita

Seja meiga, seja objetiva
Seja faca na manteiga
Pressinto como você chega
Ligeira
Vasculhando a minha tralha
Bagunçando a minha cabeça
Metralhando na quinquilharia
Que carrego comigo
(Clipes, grampos, tônicos)
Toda a dureza incrível do meu coração
Feita em pedaços

Minha cabeça trovoa
Sob teu peito eu encontro
A calmaria e o silêncio
No portão da tua casa no bairro
Famílias assistem tevê
(Eu não)
Às 8 da noite
Eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você
Eu sei
Quer dizer
Eu acho que sei
Eu acho que sei

Vou sossegado e assobio
E é porque eu confio
Em teu carinho
Mesmo que ele venha num tapa
E caminho a pé pelas ruas da lapa
(Logo cedo, vapor… acredita?)
A fuligem me ofusca
A friagem me cutuca
Nascer do sol visto da vila ipojuca
O aço fino da navalha me faz a barba
O aço frio do metrô
O halo fino da tua presença

Sozinha na padoca em santa cecília
No meio da tarde
Soluça, quer dizer, relembra
Batucando com as unhas coloridas
Na borda de um copo de cerveja
Resmunga quando vê
Que ganha chicletes de troco

Lembrando que um dia eu falei
"Sabe, você tá tão chique
Meio freak, anos 70
Fique
Fica comigo
Se você for embora eu vou virar mendigo
Eu não sirvo pra nada
Não vou ser teu amigo
Fique
Fica comigo"

Minha cabeça trovoa
Sob teu manto me entrego
Ao desafio de te dar um beijo
Entender o teu desejo
Me atirar pros teus peitos
Meu amor é imenso
Maior do que penso
É denso
Espessa nuvem de incenso de perfume intenso
E o simples ato de cheirar-te
Me cheira a arte
Me leva a marte
A qualquer parte
A parte que ativa a química
Química

Ignora a mímica
E a educação física
Só se abastece de mágica
Explode uma garrafa térmica
Por sobre as mesas de fórmica
De um salão de cerâmica
Onde soem os cânticos
Convicção monogâmica
Deslocamento atômico
Para um instante único
Em que o poema mais lírico
Se mostre a coisa mais lógica

E se abraçar com força descomunal
Até que os braços queiram arrebentar
Toda a defesa que hoje possa existir
E por acaso queira nos afastar
Esse momento tão pequeno e gentil
E a beleza que ele pode abrigar
Querida nunca mais se deixe esquecer
Onde nasce e mora todo o amor

Barato pessado

Venha para nossa congregação (O barato é pesado) Pra entrar não paga nem um tostão (O barato é pesado) Não temos Capela, Igreja e nem Sé (O barato é pesado) Pode vir, nem mesmo precisa fé (O barato é pesado) Você chegou desconfiado Já tá ficando mais relaxado Pode cantar animado Que hoje o seu gelo derrete Quanto mais você repete Mais o Barato é pesado Cante uma, duas, três Depois quatro, cinco, seis Diga se dá resultado Conte sete vezes sete Quanto mais você repete Mais o Barato é pesado Deixe Rivotrill, Diazepan Café, chocolate e o Lexotan Esse teu vazio espiritual Vai passar bem antes do Carnaval Você foi mal acostumado Mas já te vejo regozijado E seu HD travado Parou de pedir reset Quanto mais você repete Mais o Barato é pesado

Vale do Jucá - Siba e a Fuloresta

Era um caminho quase sem pegadas
Onde tantas madrugadas folhas serenaram
Era uma estrada, muitas curvas tortas
Quantas passagens e portas ali se ocultaram
Era uma linha, sem começo e fim
E as flores desse jardim, meus avós plantaram
Era uma voz, um vento, um sussurro
Relampo, trovão e murro nos que se lembraram
Uma palavra quase sem sentido
Um tapa no pé do ouvido
Todos escutaram
Um grito mudo perguntando aonde
Nossa lembrança se esconde
Meus avós gritaram
Era uma dança
Quase uma miragem
Cada gesto, uma imagem dos que se encantaram
Um movimento, um traquejo forte
Traçado, risco e recorte
Se descortinaram
Uma semente no meio da poeira
Chã da lavoura primeira
Meus avós dançaram
Uma pancada, um ronco, um estralo
Um trupé e um cavalo
Guerreiros brincaram
Quase uma queda, quase uma descida
Uma seta remetida, as mãos se apertaram
Era uma festa
Chegada e partida, saudações, despedidas
Meus avós choraram
Onde estará aquele passo tonto
E as armas para o confronto, onde se ocultaram?
E o lampejo da luz estupenda que atravessou a fenda
Que tantos enxergaram
Ah se eu pudesse, só por um segundo
Rever os portões do mundo que os avós criaram